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o retorno de zabelê, zumbi e besouro... a vespa não veio. tá lá, fabricando mel

segunda-feira, 12 de abril de 2004

jogos que ninguém vence
A TRISTE JORNADA AO TOPO DA MONTANHA

Havia a montanha
E havia o alpinista.

Uma com seu topo assolado por fortes tempestades.
O outro disposto a desafiar todas elas.

Em certos dias, a montanha percebia o cansaço de seu oponente e dava um jeito de mandar para longe as nuvens escuras, carregadas de chuva e insegurança.
Nestas ocasiões o alpinista podia se dar ao luxo de cravar uma de suas bandeiras no solo da montanha.

E isso, claro, logo despertava a fúria da montanha.
Que, afinal de contas, em toda a sua grandiosidade de montanha, não poderia ser assim tão fácil de conquistar.
Sobretudo por um alpinista que nem mesmo lhe pedira permissão para iniciar a jornada.

E disso a montanha nunca haveria de esquecer.

Às vezes o alpinista chorava. Em outras sentia um dor tão grande que lamentava ter se arriscado assim, na escalada de uma montanha em que nunca ninguém havia subido. E pensava, em sua dor de amante do perigo, que o ineditismo tem um preço altíssimo.

Lembrava de todos os amigos que o aconselharam a não cometer tal loucura: escalar justamente essa montanha?

Mas a idéia de vencer a montanha lhe tirava os pés do chão.
A simples idéia de ver o que havia do outro lado chegava a tirar-lhe o fôlego.
E era isso que o empurrava, dia após dia, rumo ao cume gelado da montanha.

Aconteceu porém que a sucessão de dias ruins fez o alpinista sentir vontade de abandonar a jornada.
Continuar pra que?
Montanhas são montanhas e não seria difícil encontrar outra que fosse menos complicada.

Ao perceber isso, a montanha abriu caminho para o alpinista. Apesar de sua grandeza de rainha dos acidentes geográficos, não queria perder aquele que entretinha seus dias e fazia menos monótona a vida estática de um ser todo feito de rocha. Ainda que lá no fundo de todas as camadas de pedra houvesse sim, um ou outro fluxo de magma.

A montanha abriu caminho para o alpinista, que decidiu continuar a escalada. E subiu naquele dia, sem nenhum equipamento, muito mais metros do que em toda a jornada.

Tudo em vão.

Ocorreu que a montanha, ao abrir caminho para seu adversário, contrariou sua própria natureza de ser indevassável. Isso despertou, naquela noite, uma nevasca nunca antes vista. Nevou na base e nevou no topo.

Para matar o alpinista, a montanha matou a si mesma.
Congelava o inimigo sob pena de ficar ela mesma gelada por eras.

Guardou entre suas camadas de gelo o corpo sem vida do alpinista, cuja história passou a ser contada nos vilarejos vizinhos. E a moral da história era sempre a de que nuca se deve confiar em uma montanha.

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