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o retorno de zabelê, zumbi e besouro... a vespa não veio. tá lá, fabricando mel

sexta-feira, 24 de outubro de 2003

fábulas
CLEIDE E O CLIMA

A casa de Cleide tinha sempre um quarto vazio, uma cama confortável e toalhas macias para viajantes cansados. E eles eram muitos, porque a casa ficava entre o nada e o lugar nenhum, ou seja, bem na trajetória de quem não tem a mínima idéia de para onde vai.

Mas o quarto mais vazio mesmo era o dela.

Cleide tinha um acordo com o Clima: aceitava tempo feio em todos os dias que passasse sozinha, desde que fizesse sol e houvesse flores enquanto estivesse por lá um hóspede. E assim acontecia: chuva e calor alternavam-se na mesma frequência dos quartos ora ocupados, ora vazios da casa.

Mas Cleide odiava o frio. E a solidão.

Por isso pensou que o único jeito de fazer sol para sempre seria fazer com que um dos hóspedes deixasse de ser hóspede. Virasse morador, companheiro, parceiro, qualquer coisa que o fizesse não querer mais ir embora. Uma idéia de gênio, como todas as outras que ela tinha.

Mas, quando pensava melhor, ela concluía que suas idéias não eram assim, tão geniais.

Mas essa era. E um dia Cleide encontrou um viajante que parou de viajar para ficar mais tempo no quarto outrora vazio. Ficou e ficou e quando ela achava que começava a sentir falta do frio – e da solidão – percebeu que queria que ele ficasse mais um pouquinho. O Clima, apesar de bravo por ter sido ludibriado, se contentava em oferecer o calor estabelecido no contrato.

Mas o viajante precisou viajar de novo. Ou melhor, cansou da casa. Achou que era melhor voltar ao nada, em vez de caminhar rumo a lugar nenhum.

Daí o Clima se vingou e fez chover por dois anos. Quando parecia que a água já tinha acabado, comeou o granizo e, mais tarde, a neve. De modo que nenhum visitante, por mais perdido, conseguia chegar até a casa de Cleide. Quase nenhum, aliás.

Um dia apareceu um visitante sem mochila nem casaco. Sem sapatos ou equipamentos e disse que estava cansado de parar de casa em casa. Queria ele mesmo ter a sua. E Cleide, que não via viva alma havia muito tempo, aceitou que ele ficasse, serviu-lhe chá. Abriu o quarto e o tempo abriu junto.

E fez sol. Muito sol. Tanto sol que às vezes o ex-viajante precisava até viajar um pouquinho. Porque o Clima também precisava dar suas chovidas de vez em quando. E nestes dias Cleide saía no quintal – coisa rara – e tomava banho de chuva.

E ele sempre voltava. E ela o recebia calorosamente. E eram felizes para sempre.

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